Quebradores de Coco Babaçu – Serra da Meruoca, Ceará

O babaçu é uma das mais importantes representantes das palmeiras brasileiras, distribuindo-se por mais de 18 milhões de hectares em todo o Brasil. É constituído por um conjunto de seis espécies de palmeiras do gênero Orbignia, sendo as mais importantes O. speciosa e O. oleifera. Como espécie típica precursora, alastrou-se espontaneamente por uma grande área nos estados do Maranhão, Tocantins, Goiás, Pará e Piauí, vindo a constituir maciços muitos densos chegando a ter mais de mil indivíduos por hectare (DOS SANTOS & PASTORE JÚNIOR, 2003).

É uma planta que faz parte vegetação secundária, ou seja, a partir do momento que ocorre o desmatamento, seguido do fogo, para o plantio de roçados, a germinação de seus frutos é potencializada.

As plantas de babaçu se desenvolvem bem em regiões de clima quente, e ocorrem principalmente nos estados do Maranhão, Piauí, Mato Grosso e áreas isoladas dos estados do Ceará, Pernambuco e Alagoas. São encontradas também na Bolívia, Guianas e Suriname. A propagação da planta é feita através de sementes. No Ceará é comum encontrar babaçu nas regiões da Ibiapaba, Araripe, Serra do Baturité e Serra da Meruoca.

Na região da APA da Meruoca é muito comum encontrar essa palmeira, principalmente, na região norte da Serra, em alguns distritos dos municípios de Massapê e Meruoca. Segundo dados do IBGE o município de Meruoca tem capacidade para produzir mais de 20 toneladas de amêndoa/ano, quase 5% da produção de amêndoas do estado. Porém a produção de amêndoa vem caindo a cada ano, devido, principalmente:

Baixo preço que é pago aos quebradores, entre 0,80 e 1,00 real/kg de amêndoa;

Falta de organização dos quebradores;

Ausência de assessoria técnica;

Falta de equipamentos para processamento da amêndoa e da massa (mesocarpo);

Debilidade no aproveitamento integral do coco, haja vista que de tudo se aproveita;

Contudo o babaçu foi e ainda é uma fonte de renda para as famílias que moram em regiões mais isoladas na Serra da Meruoca. É comum escutar de agricultores (as) que criaram seus filhos através do babaçu, lógico que associado com outras atividades como roçado de milho e feijão, farinha de mandioca, castanha de caju, banana e a caça. O babaçu em algumas comunidades na serra faz parte das vidas das pessoas, devido suas inúmeras utilizações e os benefícios:

Fruto

Uma árvore leva entre 15 e 20 anos para produzir o fruto – de cem quilos de coco quebrado aproveitam-se de oito a dez quilos de amêndoas.

Polpa

É oleosa e farinácea, contendo de 3 a 5 sementes.

Folhas

Medem cerca de 8 metrosde comprimento, e crescem em forma de arco;

Flores

Sua cor é entre creme e amarela, e ficam aglomeradas em longos cachos; cada palmeira pode apresentar até 6 cachos.

Produtos

A árvore produz mais de sessenta derivados e tudo é aproveitado:

Mesocarpo

Parte intermediária ou polpa: ingrediente para ótimos pratos da culinária local; a farinha, mais conhecida como pó de babaçu, tem propriedades terapêuticas, como será visto adiante;

Epicarpo (uma das camadas da casca);

Depois de preparado, pode servir como combustível para os habitantes das comunidades rurais, substituindo a lenha.

Óleo

Usado para cozinhar, fazer margarina, sabão, sabonete e xampu;

Palmas (ou folhas) e cocos;

Fabricam-se redes, tapetes, peças de artesanato, jóias.

Palha

Serve para cobertura de casas e confecção de cercas e é matéria-prima para fazer papel e sacos.

Casca do coco

Depois de devidamente preparada, é usada como fonte de energia (combustível). Essa prática, geralmente, é feita à noite, devido ao fato de a fumaça que produz ser um eficiente repelente contra insetos; também produz: etanol, metanol, coque, carvão reativado, gases combustíveis, ácido acético e alcatrão, de grande aplicação industrial.

Caule da palmeira jovem

Produzem palmito e uma seiva que é transformada em vinho, depois de fermentada

Amêndoas ainda verdes

Depois de raladas e espremidas, se junta um pouco d’água e passa-se por um pano fino, dando como resultado um leite vegetal de grande capacidade nutritiva idêntica a do leite humano. É muito usado na culinária como tempero para carnes e peixes em geral, ou ingerido ao natural, em substituição ao leite animal, com grandes vantagens.

Adubo

Depois de apodrecido e também serve de alimento para animais.

Biomassa

Pode gerar o equivalente a 105 Mw (2% da matriz energética nacional), a partir das cerca de mil toneladas de cascas por ano, devido ao aproveitamento de, aproximadamente, 120 mil toneladas de castanhas de babaçu, segundo tese de doutorado de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (SP), feita pelo Dr. Marcos Alexandre Teixeira.

Composição

Contém amido, vitaminas e sais minerais diversos.

Indicações Terapêuticas

A farinha do Mesocarpo ou pó do babaçu tem propriedades anti-inflamatórias e analgésicas, é rica em fibras, portanto, ótima para combater prisão de ventre, colite e obesidade, pois torna o fluxo intestinal mais eficiente.

Algumas fontes:

http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/babacu/babacu-3.php

Sucessão Ecológica – Texto

Abaixo mais um texto importante para ser estudado sobre sucessão ecológica, elaborada pelo professor Ambrósio, curso de Zootecnia.

As características da comunidade vegetal, até agora estudadas, são instrumentos indispensáveis na avaliação das mudanças constantes que a vegetação sofre em função do efeito dos fatores ambientais. Estas alterações podem ser rítmicas e repetidas todos os anos como consequência das variações climáticas, mas podem também indicar uma evolução em busca de um novo ponto de equilíbrio. As mudanças unidirecionais da substituição de comunidades vegetais em uma mesma área são denominadas de sucessão. Este fenômeno de fitossociologia há muito é conhecido e sua manipulação constitui um dos aspectos fundamentais do manejo da pastagem nativa.

A sucessão, quanto à forma, pode ser natural ou induzida. Nas primeiras mudanças no ambiente, quer causadas pela própria evolução da comunidade vegetal, quer pela fisiografia, determinam a direção e a velocidade da sucessão. Na segunda, mudança causadas principalmente pela ação do homem (queimadas, pecuária, cultivo, exploração madeireira, etc) resultam no processo de sucessão. Quanto à origem, a sucessão pode ser primária ou secundária. A sucessão primária tem lugar em áreas nunca antes ocupadas por vegetação ou onde a vegetação prévia e o solo foram destruídos. Isto significa que na sucessão primária, vegetação e solo evoluem concomitantemente e se auto-influenciam de tal modo que para cada estádio de formação há uma comunidade vegetal característica. No que tange ao substrato, a sucessão primária pode ser uma xeróssere se tem origem em áreas áridas ou uma hidróssere se tem lugar em um corpo de água (lago, açude, etc.). Ainda a xeróssere pode denominar-se de litóssere ( se se origina em uma rocha) psamóssere ( se se origina em uma duna).

Estádios de uma litóssere – A terminação “sere” da palavra, significa estádio de sucessão. Este tipo de sucessão tem sua velocidade controlada pela taxa de formação e acumulação do solo e passa pelas seguintes etapas: (1) liquens da crosta, (2) liquens folhosos, (3) ervas anuais e (4) arbustos e árvores perenes. Neste caso, a formação do solo se dá não só pela degradação da rocha sob ação do intemperismo e das raízes das plantas, que tendem a se acelerar à medida que a biomassa vegetal aumenta, como também pelo acúmulo de partículas de poeira do ar capturadas e retidas pela massa vegetal e pela deposição dos restolhos.

Estádios de uma Hidróssere – A sucessão em corpo de água passa por etapas em que as comunidades vegetais determinam a elevação do fundo do lago pela deposição de sedimentos, água e material orgânico, transformando lentamente um local alagado em um de condições mésicas ou de terra firme em termos de disponibilidade de ar. Neste tipo de sucessão, todos os estádios são formados por vegetais superiores. São as seguintes etapas: (1) estádio flutuante, (2) estádio ancorado, (3) estádio emergente, (4) arbusto e árvores de terra firme. É comum ver-se em uma lagoa ou açude representantes de todos os estádios, localizando-se as espécies do estádio flutuantes nas partes mais profundas.

Sucessão Secundária – tem lugar em áreas onde a vegetação prévia foi destruída, sem que o solo tenha sido atingido significativamente. Enquanto a sucessão primária é excessivamente lenta e de quase nenhuma aplicação imediata para o manejo de pastagens nativas, a secundária constitui um do fenômenos ecológicos que é manipulado constantemente pelo manejo. Assim, um roçado recém abandonado no sertão nordestino em uma pastagem em degradação são exemplos de tipos de áreas onde a sucessão secundária tem lugar. A sucessão secundária é classificada quanto a direção em: progressiva quando tende a regenerar o clímax e regressiva quando se afasta do clímax, indicando uma degradação. O clímax constitui a comunidade e representa o maior potencial da vegetação para as condições ecológicas da região. Todavia, quando o clímax não constitui o estádio mais produtivo do ponto de vista da exploração que se compõe, é favorável a estabilização do processo de sucessão em etapas intermediárias e representam o ponto ótimo da produção.

Estádios de uma Sucessão secundária Induzida pelo Pastoreio Desordenado – O superpastoreio tem sido, o fator mais importante de degradação da vegetação e desertificação em regiões semiáridas do mundo. Isto porque, a cobertura florística, já enfraquecida pela limitação dos fatores ambientais é submetida a uma pressão de pastoreio, em intensidade e freqüência tais que tornam impossível a sua sobrevivência.

Neste contexto a vegetação sob pastoreio fornece sinais e indicações que foram agrupados em estádios da chamada sucessão regressiva.

1o Estádio – Distúrbios Fisiológicos dos Componentes do Clímax – As espécies botânicas componentes da vegetação de uma pastagem tem diferentes formas de apetibilidade que se refletem na preferência diferenciada exercida pelos animais em pastoreio. Assim, estas forrageiras são as mais procuradas e desfolhadas com mais freqüência. Sob condições de superpastoreio, quer pelo número excessivo de animais, quer pela época inoportuna, as forrageiras mais apreciáveis passam a suportar um ritmo de pastejo acima da sua capacidade de recuperação e começam a mostrar sinais de “cansaço fisiológico” indicadas pela perda de vigor e capacidade reprodutiva.

2o Estádio – Mudanças na Composição do Clímax – A continuar as mesmas condições de manejo estas plantas vão morrendo paulatinamente e, como a produção de sementes viáveis não supre as necessidades de novas plântulas para reposição das que fenecem vão se abrindo espaços na comunidade vegetal, prontamente ocupados por componente de menor procura pelos animais. Neste ponto, as espécies botânicas do clímax podem ser crescentes se tendem a aumentar sob o superpastoreio e diminuir se tendem a desaparecer.

3o Estádio – Invasão de Novas Espécies – Mas o animal muda a sua dieta, a medida que as melhores espécies desaparecem (decrescem) , passando a consumir as forrageiras secundárias (crescentes). Todavia, estas também não suportam a utilização excessiva e passam a desaparecer e a comunidade se abre então, à invasão por novas espécies não pertencentes à sua composição florística normal. Vale notar, que as mudanças são qualitativas, podendo alguns parâmetros fitossociológicos até serem incrementados no processo.

4o Estádio – Desaparecimento da Vegetação Clímax – As mudanças nas condições ambientais, causam prontamente alterações profundas na composição florística, começando por induzir o desaparecimento dos antigos componentes do clímax, ficando a vegetação da área composta por invasoras, geralmente oriundas de comunidades vizinhas.

5o Estádio – Desaparecimento da Cobertura Vegetal – Por fim até mesmo as novas espécies que ocupam a área começam a desaparecer e a exposição gradual do solo acelera o processo de erosão e destruição de sua estrutura.

6o Estádio – Desertificação – Fase final do processo em que o solo erodido e desestruturado não tem mais condição de sustentar uma cobertura florística e o processo de desertificação é quase sempre irreversível.

Imagens:ib.usp.br; coladaweb.com; 

Texto do Dr. João Ambrósio de Araújo Filho – Professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UEVA, PhD Range Management, University of Arizona, U.A. Ex-pesquisador da Embrapa Caprinos.

Sistema Agroflorestal – SAF – Meruoca – Santo Elias

Sítio Santo Elias: uma experiência de agrofloresta na Serra da Meruoca

Encravada na Serra da Meruoca, a pequena comunidade Santo Elias é um exemplo a ser seguidas pelas demais comunidades da Área de Proteção Ambiental – APA da Serra da Meruoca, no que tange ao manejo sustentável dos recursos naturais, produção de alimento de qualidade sem agroquímicos, organização social, beneficiamento e comercialização dos produtos locais, gerando trabalho e renda para a população local, o que garante a fixação do homem, da mulher e do jovem no campo.

Mas nem sempre foi dessa forma…

No passado não muito distante, através de comentários de pessoas com maior experiência, as atividades geradoras de trabalho e renda na comunidade eram, principalmente, a criação de gado, o roçado, sítios e o extrativismo, nesse caso o coco babaçu.

Era comum no período seco, estiagem, os fazendeiros subir a serra com os animais (gado) dos sertões, através de comboios em busca de alimento, a fim de manter o peso do rebanho. No período de chuva, por conta do aumento da incidência de doenças, ocasionada pelo excesso de umidade, os animais desciam a serra para o sertão, e essa prática até os dias atuais ainda acontecem.

No período “seco” se aproveitava ainda para iniciar os roçados, tidos como itinerantes, ou seja, agricultura nômade, sem fixação no local, baseada no desmatamento total ou parcial da área, seguido da queimada, plantio (milho, feijão e mandioca) por dois anos e pousio da área. Esses roçados eram feitos nas “quebradas”, em lajedos (áreas acima de 45°), geralmente com manchas de solo boas para esse tipo de produção. A produção tem como finalidade garantir o abastecimento de grãos (milho e feijão) para alimentação humana e animal durante todo o ano.

Outro modelo de agricultura é a formação dos sítios com frutíferas exóticas em locais mais úmidos, geralmente nas “baixas”, próximo aos riachos e nascentes. As principais frutas trabalhadas na região são: banana, manga, caju, jaca, abacate, goiaba, citros em geral, café, urucum e pimenta do reino. Essa produção durante todo o ano garante fruta para consumo e o excedente para ser comercializado.

A extração também garante a sobrevivência das famílias. O babaçu, palmeira de extrema relevância na Meruoca, gerando renda para as famílias, através da sua amêndoa para obtenção de óleo utilizado na alimentação humana, quando trituradas essa amêndoa serve para alimentar pequenos animais (aves e suínos), o mesocarpo (farinha) na alimentação das crianças, broto na alimentação humana e o coco inteiro como lenha para os fogões.

O manejo utilizado para manter esse sistema de produção tradicional necessita de áreas consideravelmente grandes, a fim de garantir que haja minimamente a recuperação e reconstituição dos recursos naturais renováveis, como a fertilidade do solo, o repovoamento das espécies vegetais, e, consequentemente, a conservação da água. Diversos são os fatores que interagem para com o manejo da terra. Uma delas e, talvez, de maior relevância é a questão fundiária, ou seja, a redução do tamanho da propriedade rural.  Com a divisão das terras por meio de partilhas, posses e heranças (passadas de pai para filho) a situação fundiária esta ficando cada vez mais delicado devido o adensamento populacional dentro da área rural. Contudo se faz necessário um repensar sobre o modelo de agricultura e manejo com a terra, haja vista que a proporção de área pelo número de famílias está diminuindo, conflitando diretamente com o modelo produtivo convencional. Os resultados são perceptíveis tanto aos olhos quanto ao bolso.

Mas a natureza é muito sábia, ela dá todos os sinais de que senti. De acordo com Loverlock, Gaia, Terra, é um organismo vivo que se alto regula no intuito de manter a biota do planeta viva. E para isso ela dar sinais, da mesma forma como acontece com qualquer organismo vivo quando algo de errado está acontecendo. Sr. Sebastião (agricultor da comunidade Santo Elias), não trabalhou diferentemente dos demais agricultores. Confessa que foi um dos maiores destruidores dos recursos naturais de sua região.

“Deixei a terra limpa! Capinei tanto e botei tanto fogo que chegou um momento que a terra parecia com essa estrada (de chão batido), não produzia mais nada! Era a natureza falando comigo. Mandando a conta pelo que meus pais e avos fizeram com ela. Daí nóis tinha duas opções: ou mudar para alguma coisa que não sabia o que era, ou ir embora para outro local, cidade… Mas Tiago, nóis num sabe nem roubar, o que é que nóis vai fazer na cidade?”

Nesse momento a natureza estava falando com ele, ou seja, o sistema dando sinais de que uso da terra da forma como estava sendo feito não dava para suportar por muito tempo e que estava precisando de cuidados. Através da leitura da paisagem ele conseguiu identificar que o solo estava sendo erodido, ou que “as pedras estavam crescendo”, o solo não mais tinha a vitalidade de antes. A diminuição da produção, pouca presença de animais, solo sem cobertura vegetal, as nascentes e riachos secando serviram foram agravando ainda mais a situação e desgastando ainda mais a terra. Contudo a única saída para se manter na terra e viver dela seria a mudança total de ver a terra.

“Temos que ficar é na nossa Terra mesmo, é nosso local, é onde nascemos e nos criamos. Parei de queimar e comecei a colocar bagulho (palhada) no chão e todo mundo me chamando de doido. Isso a mais de 20 anos. Comecei a deixar as planta e vi que a cada ano as ervas passavam mais tempo verde e vi que isso era bom. E comecei a plantar por conta própria sem muita ajuda técnica. Depois foi que veio o sistema agroflorestal para ajudar nosso trabalho.”

O sistema agroflorestal é um termo novo para uma prática antiga utilizada pelos indígenas King e Chandler (1978). É a simulação dos eventos naturais de uma floresta, consorciando espécies de essências florestais com espécies que sejam fontes de fibra, carboidratos, proteínas (animal e vegetal), vitaminas e minerais, a fim de suprir as necessidades alimentares das famílias locais, fixando o homem, a mulher e a juventude no campo, de forma a produzir por muitos anos dentro da mesma área.

Quanto mais próximo do equilíbrio, mais o sistema produzirá, mais permanente e mais próximo da sustentabilidade será.

A árvore passa a ser a protagonista, que vai desempenhar diversas funções na área, através da produção de frutos, sementes, cascas para remédio, fixar o solo e conter a erosão, ciclagem de nutrientes por meio de suas folhas, facilitar a lixiviação das águas e dos nutrientes para as camadas mais profundas do solo, conforto térmico, quebra vento, barreira contra incêndio, além de alimento e abrigo para a vida silvestre.

No primeiro momento pode parecer muito simples a implantação do SAF, mas para desenvolver e sistematizar os princípios que norteiam esse modelo de produção, foi necessário muitos anos de pesquisa e prática no campo. O suíço, Ernst Gotsh vem trabalhando esse modelo há quase 20 anos e suas propostas já foram implantadas em todos os biomas brasileiros, baseado na sucessão vegetal como principal ferramenta indicadora de evolução do sistema de produção. Temos aqui na região uma proposta sistema de produção para o bioma caatinga, elaborada pelo Professor João Ambrósio. Como a Serra da Meruoca é uma ilha de Mata Atlântica encravada no sertão o ideal seria a fusão das duas propostas no intuito de otimizar o sistema de produção.

Os sistemas de produção baseados nos conceitos de SAFs tendem a caminhar rumo à formação da floresta, ao clímax, ou seja, ao nível máximo de produção de biomassa, com frutos, folhas, lenhas, raízes e sementes. Para isso é importante se conhecer os componentes da biota local, especialmente os estratos vegetais presentes no bioma onde se pretende trabalhar. Sabe-se que a vegetação de uma região tropical é formada basicamente por 3 grandes camadas ou estratos: a herbácea, arbustiva e arbórea, formando uma pirâmide de evolução do solo e da vegetação rumo ao clímax.

Essa pirâmide aumenta ou diminui de acordo com o manejo que é realizado dentro do sistema. E esse sistema, como toda floresta, em algum momento deve estabilizar e chegar ao ponto de equilíbrio.

Os princípios norteadores do SAF são técnicas de manejo como, podas, roços seletivo, coquetéis de sementes, bolas de argila, controle biológico, policultivo, adubação verde, sistema de aléia, cobertura do solo, etc. Mas isso vai de acordo com o que se pretende, bem como as plantas que irão ser utilizadas dentro da propriedade.

Mas quais são as vantagens do sistema agroflorestal em relação sistema convencional?

Podemos citar principalmente a redução dos custos de implantação e manutenção, aumento da diversidade e da qualidade de alimentos, controle biológico das pragas e doenças, conservação dos recursos naturais renováveis, especialmente o solo, ciclagem de nutrientes, aproveitamento de produtos florestais e recuperação de áreas em degradação.

Por: Tiago Silva – Permacultor, Educador e Extensionista do Instituto Carnaúba. Esse texto foi um resumo a partir de um trabalho que está sendo realizado a mais de 6 anos na comunidade Santo Elias, através do Instituto Carnaúba. São cerca de 10 famílias que estão realizando as atividades somente nessa comunidade. Recebem visitas de diversas instituições para realizar dia de campo.

Fontes – Sites: geomaps.com, ceplac,

Fotos: Alcides Mota e Tiago

Como enfrentar a sexta extinção em massa? – Leonardo Boff

Referimo-nos anteriormente ao fato de o ser humano, nos últimos tempos, ter inaugurado uma nova era geológica – o antropoceno – era em que ele comparece como a grande ameaça à biosfera e o eventual exterminador de sua própria civilização. Há muito que biólogos e cosmólogos estão advertindo a humanidade de que o nível de nossa agressiva intervenção nos processos naturais está acelerando enormemente a sexta extinção em massa de espécies de seres vivos. Ela já está em curso há alguns milhares de anos. Estas extinções, misteriosamente, pertencem ao processo cosmogênico da Terra. Nos últimos 540 milhões de anos ela conheceu cinco grandes extinções em massa, praticamente uma em cada cem milhões de anos, exterminando grande parte da vida no mar e na terra. A última ocorreu há 65 milhões de anos quando foram dizimados os dinossauros entre outros.

Até agora todas as extinções eram ocasionadas pelas forças do próprio universo e da Terra a exemplo da queda de meteoros rasantes ou de convulsões climáticas. A sexta está sendo acelerada pelo próprio ser humano. Sem a presença dele, uma espécie desaparecia a cada cinco anos. Agora, por causa de nossa agressividade industrialista e consumista, multiplicamos a extinção em cem mil vezes, diz-nos o cosmólogo Brian Swimme em entrevista recente no Enlighten Next Magazin, n.19. Os dados são estarrecedores: Paul Ehrlich, professor de ecologia em Standford calcula em 250.000 espécies exterminadas por ano, enquanto Edward O. Wilson de Harvard dá números mais baixos, entre 27.000 e 100.000 espécies por ano (R. Barbault, Ecologia geral 2011, p.318).

O ecólogo E. Goldsmith da Universidade da Georgia afirma que a humanidade ao tornar o mundo cada vez mais empobrecido, degradado e menos capaz de sustentar a vida, tem revertido em três milhões de anos o processo da evolução. O pior é que não nos damos conta desta prática devastadora nem estamos preparados para avaliar o que significa uma extinção em massa. Ela significa simplesmente a destruição das bases ecológicas da vida na Terra e a eventual interrupção de nosso ensaio civilizatório e quiçá até de nossa própria espécie. Thomas Berry, o pai da ecologia americana, escreveu:”Nossas tradições éticas sabem lidar com o suicídio, o homicídio e mesmo com o genocídio mas não sabem lidar com o biocídio e o geocídio”(Our Way into the Future, 1990 p.104).

Podemos desacelerar a sexta extinção em massa já que somos seus principais causadores? Podemos e devemos. Um bom sinal é que estamos despertando a consciência de nossas origens há 13,7 bilhões de anos e de nossa responsabilidade pelo futuro da vida. É o universo que suscita tudo isso em nós porque está a nosso favor e não contra nós. Mas ele pede a nossa cooperação já que somos os maiores causadores de tantos danos. Agora é a hora de despertar enquanto há tempo.

O primeiro que importa fazer é renovar o pacto natural entre Terra e Humanidade. A Terra nos dá tudo o que precisamos. No pacto, a nossa retribuição deve ser o cuidado e o respeito pelos limites da Terra. Mas, ingratos, lhe devolvemos com chutes, facadas, bombas e práticas ecocidas e biocidas.

O segundo é reforçar a reciprocidade ou a mutualidade: buscar aquela relação pela qual entramos em sintonia com os dinamismos dos ecossistemas, usando-os racionalmente, devolvendo-lhes a vitalidade e garantindo-lhes sustentabilidade. Para isso necessitamos nos reinventar como espécie que se preocupa com as demais espécies e aprende a conviver com toda a comunidade de vida. Devemos ser mais cooperativos que competitivos, ter mais cuidado que vontade de submeter e reconhecer e respeitar o valor intrínseco de cada ser.

O terceiro é viver a compaixão não só entre os humanos mas para com todos os seres, compaixão como forma de amor e cuidado. A partir de agora eles dependem de nós se vão continuar a viver ou se serão condenados a desaparecer. Precisamos deixar para trás o paradigma de dominação que reforça a extinção em massa e viver aquele do cuidado e do respeito que preserva e prolonga a vida.

No meio do antropoceno, urge inaugurar a era ecozóica que coloca o ecológico no centro de nosas atenções. Só assim há esperança de salvar nossa civilização e de permitir a continuidade de nosso planeta vivo.

Leonardo Boff é autor com Mark Hathaway de O Tao da Libertação: explorando a ecologia da transformação, Vozes 2011.

Fatores Climáticos – Precipitações – Formação de Nuvens

Abaixo segue um texto resumido, mas muito claro sobre ecologia de pastagem do Professor Ambrósio, Sobral, Ceará, e uma imagem muito bem representada sobre fatores climáticos, especificamente, precipitação e o processo de formação das nuvens.

O clima constitui o fator primário de determinação da ocorrência de um organismo em uma dada região e, consequentemente, de importância ímpar na ecologia de pastagem.

A palavra clima originou-se do vocábulo grego que significa inclinação e é determinado, principalmente, como, hoje o conhecemos, pela inclinação do eixo da terra 23o 27′ com relação ao plano de órbita em torno do sol. Esta inclinação por seu turno, define a quantidade de energia solar que alcança a superfície da terra ao longo de sua órbita, afetando uma série de fatores que determinam no ano o ritmo das estações. São componentes do clima: precipitação, temperatura, luz solar e atmosfera.

Precipitação – Constitui a fonte principal de oferta de água para planta e animais. Pode ocorrer sob a forma de chuva, neve e granizo. Em nossa região, a precipitação pluvial é a única forma de ocorrência, sendo raríssima a forma de granizo.

As nuvens formam-se pela condensação de vapor d’água atmosférico em função do gradiente térmico da camada gasosa que envolve a terra e que equivale a 9,8 oC para cada 100 metros de elevação. O gradiente térmico é causado pela aumento da distância do solo e redução da densidade do ar. Para que haja, pois, a condensação do vapor d’água e formação de nuvens é necessário que uma massa de ar seja elevada. Isto pode ocorrer de três maneiras: frontal, orográfica e convectiva.

A frontal refere-se as chamadas frentes, que podem ser frias ou quentes. No primeiro caso são enormes massas de ar frio e seco que se deslocam dos pólos para o equador. Funcionam como uma cunha com uma declividade de 1:50, que força o ar quente a elevar-se, resultando na condensação, formação de nuvens e precipitação acompanhada de muita turbulência atmosférica. As características da chuva originada são a grande abrangência geográfica, alta intensidade, longa duração e é associada a queda da temperatura regional. Já a frente quente consiste no deslocamento de massas de ar quente do equador para os pólos. Neste caso, o ar quente ao encontrar o ar mais frio, é elevado em uma rampa suave de 1:150. A chuva resultante é de baixa intensidade e longa duração.

A orográfica resulta da presença de serras e montanhas. Serrotes de 200 metros de altura já tem efeito sobre a distribuição da precipitação pluvial média de uma região , que tende a aumentar até uma altitude de 3000 metros, quando se inicia um decréscimo progressivo. Dois são os efeitos orográficos sobre a precipitação pluvial média de uma região:

Efeito de aproximação – observado do lado dos ventos dominantes (barlavento), quando há aumento das chuvas com relação a média regional;

Efeito de sombra de chuva – do lado oposto dos ventos dominantes (sotavento), quando se observa um decréscimo das precipitações com relação à média regional. As chuvas de origem orográficas são localizadas e ocorrem em regiões montanhosas.

A convectiva resulta do aquecimento desuniforme da superfície da terra em função das variações de cobertura do solo: pedras, vegetação verde, vegetação seca, águas, solo nu, etc. É a principal causa de chuvas nos sertões e as precipitações são caracterizadas por fenômenos atmosféricos (ventos fortes, raios e trovões), curta duração, alta intensidade e pequena abrangência geográfica. A camada de ar sobre as superfícies mais quentes, dilatam-se tornando-se menos densas que as vizinhas e formam bolhas que flutuam e são forçadas para cima pelo ar circunvizinho, observam-se então o resfriamento, condensação e posterior precipitação.

As nuvens podem ser de quatro tipos básicos ( nomes latinos) :

– Cirrus – nuvem branca de elevada altitude formada por cristais de gelo.

– Cumulus – nuvem de origem convectiva, de desenvolvimento vertical, podendo ter sua base a partir de 1000 metros e alcançar altura superior a 12000 metros. A água se encontra em forma de líquida.

– Stratus – são nuvens planas, que dão ao céu aparência de mosaico, formadas por gotículas d’água.

– Nimbus – são nuvens de chuva de baixa altitude e de grande desenvolvimento horizontal e vertical.

Além dos tipos básicos, há um elevado número de combinações, originando sub-tipos como: cirrostratus, cumulus congestus, cumulus mamiloides, etc.

A eficiência da precipitação para o crescimento vegetal depende de sete fatores: média anual, intensidade, duração, distribuição, temperatura do ar e do solo, velocidade do vento e umidade relativa do ar. Por outro lado, a precipitação anual média de uma área tem efeito direto sobre o tipo de vegetação, podendo-se indicar geralmente que :

– de 0 a 250 mm/ano – região desértica (vegetação anual)

– de 250 a 750 mm/ano – pastagem, savana ou mata aberta (predominância de gramíneas)

– de 750 a 1250 mm/ano – floresta seca (predominância de arbusto)

– acima de 1250 mm/ano – floresta úmida (predominância de árvores).

Texto do Dr. João Ambrósio de Araújo Filho – Professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UEVA, PhD Range Management, University of Arizona, U.A. Ex-pesquisador da Embrapa Caprinos.